Ela quer ficar sózinha…

dez73

Sabe, as vezes ela só quer que as coisas façam algum sentido. Ela não está preocupada com qualquer expectativa de dia seguinte, nem esperando que ele vá atrás dela ou se quer imagina a vida com alguém por agora. De fato, ela está muito mudada. Talvez pelas frustrações em relacionamentos anteriores, mas muito provavelmente porque descobriu que a própria cia lhe é suficiente.

Ela já não se importa com a quantidade de amigas que andam casando e outras escolhendo por ter ou não filhos. Ela não atendeu a ligação daquele paquera porque não quis. Não respondeu o whatsapp daquele outro porque também não quis. Ela anda querendo muito de si e esperando pouco do mundo. Ela cortou e mudou o tom dos cabelos. Desencantou da academia e foi para aqueles treinos no parque. Abre garrafas de vinho durante a semana e se diverte sozinha, na própria cama, com aqueles seriados bobos americanos.

Ela parou de se cobrar pela vida perfeita que as pessoas esperam que ela tenha. Ela está indo atrás dos sonhos próprios, das vontades insanas, aventuras mundanas e experiências únicas. Ela só quer achar o próprio sentido e seguir seus instintos. Que mal há nisso?

Esses dias mesmo ela abriu mão de uma proposta de emprego porque achou que era certinho demais para ela. E olha que ela iria receber três vezes mais. É isso tipo de coisa que liberta, que alimenta, que faz o frio da barriga voltar e a vontade de continuar constante. É a decisão de seguir o coração e fazer aquilo que quiser. É não permitir que qualquer encanto tire a rota do caminho escolhido.

Surpreendentemente, ela está sozinha. Não precisa ter o apoio moral de um cara para tomar suas decisões. Uns chamam de independência demais e já começaram as apostas para a mais nova “encalhada”. Outros ficam ali, cercando, falando, tentando acompanhar seu ritmo intenso, mas falta coragem para se aproximar. Outros dariam tudo para estar ao lado dela, mulher independente não enche o saco. Eis a grande verdade!

Ela continua se divertindo pela vida, mentindo sua idade, comprando cremes para rugas e não usando, já decidiu o destino da próxima viagem, está mudando de casa, parou de comprar sapatos e roupas, decidiu que iria aumentar a coleção de livros, mas tudo é tão irônico que já anotou na agenda a data da próxima liquidação naquela loja preferida. Aprendeu muito com a terapia, meditação e seu novo estilo de vida.

Um estilo único e feliz: a cada dia ela é muito mais dela e bem menos dos outros. Uma relação tão construtiva de amor próprio e único.

Juliana Manzato

Miss Imperfeita…

 

agora1154

Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes. Sou a Miss Imperfeita, muito prazer. A imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe, filha e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado, decido o cardápio das refeições, cuido dos filhos, marido (se tiver), telefono sempre para minha mãe, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos e ainda faço as unhas e depilação! E, entre uma coisa e outra, leio livros. Portanto, sou ocupada, mas não uma workholic. Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres. Primeiro: a dizer NÃO. Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO. Culpa por nada, aliás.Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero. Pois inclua na sua lista a Culpa Zero. Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros.Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.Você não é Nossa Senhora.Você é, humildemente, uma mulher. E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante. Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável. É ter tempo.Tempo para fazer nada.Tempo para fazer tudo.Tempo para dançar sozinha na sala.Tempo para bisbilhotar uma loja de discos.Tempo para sumir dois dias com seu amor.Três dias. Cinco dias! Tempo para uma massagem.Tempo para ver a novela.Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza.Tempo para fazer um trabalho voluntário.Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto.Tempo para conhecer outras pessoas.Voltar a estudar. Para engravidar.Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado.Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir. Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal. Existir, a que será que se destina? Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada. Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem. Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si. Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo!Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente. Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir. Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela. Desacelerar tem um custo. Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C. Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores. E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante.

Martha Medeiros – Jornalista e escritora